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Como contar para a criança que alguém morreu. Luto infantil Saiba como agir diante de um assunto tão delicado

O post de hoje é sobre um assunto triste e delicado, porém necessário. Luto infantil.

Quando minhas filhas tinham 3 anos de idade uma amiguinha delas da escolinha morreu. Não resistiu a uma cirurgia. Essa amiguinha era da mesma turma de uma das minhas filhas. A convivência era diária.

Quando recebi a terrível notícia logo pensei: “meu Deus, quanta dor para essa mãe.”  No caminho da escola fiquei imaginando como daria uma notícia dessas para crianças de apenas 3 anos de idade. Se para adultos já é difícil contar, imagina para crianças.

Várias perguntas me passaram pela cabeça. Será que elas já têm noção do que é a morte? Será que eu conto ou espero que elas perguntem? Se elas perguntarem, como vou contar? Falo de estrelinhas, céu, Papai do Céu… socorro! Fiquei perdida e abalada com a notícia.

Assim que entraram no carro, a minha filha que estudava na mesma sala da amiguinha que morreu, logo comentou: “mamãe, a Letícia (nome fictício) não foi pra aula hoje. A tia disse que ela está dodói.”  

Na escola me orientaram a não dizer sobre o ocorrido naquele momento. Após o dia de luto da escola, conversaram com as crianças sobre a ausência da amiguinha. Alguns dias se passaram até minha filha dizer: “mamãe, minha amiguinha Letícia morreu. Ela está com o Papai do Céu, só que estou com muita saudade dela. A gente pode ir lá no céu visitar minha amiguinha?”

Não teve jeito. Tive que falar sobre a morte com elas, mas percebi que ainda não tinham noção da dimensão do assunto e da gravidade do ocorrido.

Bom, espero que você não precise, mas para ajudar mamães a passarem por situações como esta com mais confiança, entrevistei a psicóloga Priscila Preard que, gentilmente, esclareceu dúvidas  com informações valiosas sobre o assunto. Confira.

 

Como contar para a criança que alguém morreu?         

Inicialmente, é importante enfatizar que a criança é um ser único onde cada uma deve ser respeitada em sua singularidade, capacidade e ritmo. A morte faz parte do ciclo vital, pois é natural da vida, porém é um tema difícil que se refere a sofrimento, transformação e traz consigo uma certa complexidade a depender, por exemplo, da forma que a morte aconteceu e de quem veio a falecer. Omitir o acontecimento e negar essa informação à criança pode ser mais desestruturante a ter que dizer a verdade. Na infância, a criança não apenas assimila o que acontece ao seu redor, como também passará por modificações a partir dessas vivências. O silêncio nesses casos será ineficiente, como também poderá ser patogênico, fazendo com que a criança fique apenas com pensamentos fantasiosos e não tenha com quem conversar. Quando você fala a verdade e se dispõe a conversar com ela, você ajuda a criança a formular os pensamentos. 

Voltando mais objetivamente à questão, penso que é importante entender a crença da família sobre o que é a morte, respeitar e compreender a fase emocional e cognitiva dessa criança e assim formular uma resposta simples e objetiva. Evitar metáforas e eufemismos como por exemplo: “fez uma viagem longa”, “dormindo para sempre”, dentre outros; isso poderá causar mais confusão, uma vez que uma criança de três anos, segundo Piaget (psicólogo suíço), se encontra em um estágio pré-operacional, ou seja, a criança nessa fase ainda desenvolverá a capacidade de simbolização.

Nesses casos validar o sentimento da criança é um movimento importante que ajudará a se sentir mais confortável com seus sentimentos. Uma alternativa é evitar utilizar termos como: “não chore.” Melhor dizer: “percebo que você está triste, quer conversar?”.                                        Ser solidário nesses momentos pode ter um efeito terapêutico, propiciando uma melhor adaptação ao momento e assim permitindo uma possível elaboração do luto e, consequentemente, uma ressignificação da vivência. 

A partir de qual idade a criança já tem noção do que é a morte?
A partir dos três anos de idade, porém ela ainda não é capaz de endereçar aspectos, tal como a morte ser algo irreversível. Com o passar do desenvolvimento, entre os 9 e 11 anos, a criança consegue compreender respostas tanto científicas, como religiosas e culturais.

Como explicar o que é a morte?
Entendo que é uma pergunta que aparece “na cabeça” dos pais acompanhada de certas doses de angústias. É uma pergunta demasiadamente genérica para um universo tão plural. Primeiramente, respeite a estrutura da criança, não traga elementos que ela não tenha condições de elaborar. Em segundo lugar, utilize-se de meios para ajudá-la a simbolizar, como filmes e livros. Caso a criança tenha entre 9 a 11 anos, poderão ser utilizados exemplos nos campos científicos, religiosos e culturais. Como dica, indico o filme VIVA – A vida é uma festa, que trata de forma leve um assunto tão delicado.

É comum as crianças saberem que as pessoas morrem quando ficam velhinhas. Mas quando uma criança morre, como explicar?
A primeira questão seria importante observar se foi a criança que trouxe essa pergunta ou se foi ela quem pontuou essa diferença. Se sim, traga argumentos onde a criança minimamente entenderá. É um tema delicado. É relevante pensar que cada caso é um caso. Acrescento ainda para os pais que não escondam seus sentimentos às crianças. O compartilhamento de emoções e sentimentos entre pais e filhos será um movimento que ajudará a criança a se sentir mais acolhida em sua dor. Outro ponto importante é perceber possíveis mudanças de comportamento após a notícia da morte, pois algumas reações são esperadas, como negação, tristeza, raiva e comportamentos regressivos, como fazer xixi na cama. Sendo essas reações comuns e esperadas nesse primeiro momento, uma vez que pode surgir sentimentos na criança relacionados a abandono ou culpa. O luto infantil é um processo subjetivo, mas é importante os pais ou responsáveis, quando notarem uma duração maior dessas reações, percebendo assim um comprometimento nas atividades no dia a dia e no comportamento da criança, procurarem por um psicólogo infantil.

E quando a morte foi um suicídio, é melhor dizer a verdade ou omitir? 
Em meu entendimento, não há que se falar em omissão, mas sim de respeito à capacidade emocional e cognitiva da criança. Faço uma pergunta para os leitores: o que essa informação acrescentará na vida das crianças? Talvez mais angústia tanto para os pais quanto para as crianças. Os aspectos trágicos de como a morte aconteceu não precisam ser explorados, pois a criança, principalmente entre 3 e 8 anos, não assimilará. Nessa fase a criança opera em um nível literal, o que significa que a capacidade de simbolização ainda está em desenvolvimento.

Se o melhor for dizer a verdade sobre o suicídio, como dizer? 
Destaco um exemplo de abordagem:

“É algo relacionado com a morte, mas te explicarei melhor quando você estiver com mais idade ou mais velho.”

Como explicar o que é suicídio?
Se essa for uma questão levantada pela criança, é importante não deixá-la sem resposta, porém não se faz necessário explicar os detalhes.

Levar ou não levar a criança no funeral e/ou enterro?
É uma decisão que diz de uma vivência íntima e subjetiva que cada família tem que se permitir elaborar. A minha colaboração nessa questão será no intuito de ajudá-los a pensar nos vários aspectos dessa experiência.O enterro é um momento ou um ritual de despedida que poderá servir de ajuda para uma melhor simbolização do processo, porém outras questões como a duração do tempo do enterro e as condições do ambiente são aspectos relevantes a serem levados em conta também.

 

Priscila Preard Andrade Maciel – CRP-01/19043-DF é Psicóloga Clínica (Criança, Adolescente e Adulto).  Atende em Brasília-DF no Instituto de Psicologia IPROL localizado no Ed. Mix Park Sul SGAS 709 Bloco F Sala 28. Telefone: (61) 99137-1716

Se você tiver mais alguma dúvida sobre o assunto deixe nos comentários.

 

 

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Sobre planetamae10

Blog de maternidade

2 respostas para Como contar para a criança que alguém morreu. Luto infantil Saiba como agir diante de um assunto tão delicado

  1. Christine Mansur Araújo Ferreira diz:

    Excelente! Parabéns Paty!

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